Por Anibal Ortega *

Os homens e mulheres e amantes da paz e do progresso das pessoas tiveram um dia triste neste sábado (25/11). Morreu um pai. Morreu um irmão. Morreu um amigo. Todos choramos. Quantos homens hoje não estão chorando a morte de nosso comandante? Milhares.

Alguns o acusaram de ter fuzilado torturadores, assassinos e estupradores de jovens, estudantes e trabalhadores. Como os torturadores dos jovens presos durante o ataque ao quartel Moncada, em 1953.

Recordo a história da revolucionária Haydée Santamaría, que foi presa ao lado de seu irmão e de seu namorado. Em determinando momento, um dos torturadores exigiu que ela deletasse seus companheiros, o que ela não o fez ainda que lhe apresentassem os olhos de seu irmão arrancados enquanto ele ainda estava vivo. Corajosamente disse: ‘se meu irmão teve os olhos arrancados e morreu, eu não vou deletar ninguém’. 

Dizia Che Guevara que execuções por pelotões de fuzilamento são não só uma necessidade para o povo de Cuba, como também uma imposição desse povo. Como Che, nosso comandante e líder revolucionário tinha razão e agiu a favor de uma nova Cuba que nascia em 1959.

Fidel Castro viveu intensamente a revolução. Saiu às ruas de Havana e de toda a Cuba sem escolta. Até que as tentativas da CIA em assassiná-lo obrigaram o comandante da revolução a restringir suas andanças por seu país. Foram aproximadamente 300 tentativas de assassinato. Há quem acredite que foram mais de 600 tentativas de matar nosso comandante.

Só com uma grande proteção de outros mundos ele não foi morto. Ele tinha uma grande tarefa a cumprir. E morreu nesta sexta-feira (25), madrugada de sábado no Brasil, de causas naturais aos 90 anos. Sob liderança de Fidel, Cuba derrotou seu pior inimigo, o Império, como ele se referia aos Estados Unidos. Em plena Guerra Fria, o imperialismo americano se viu obrigado a fazer um acordo com Cuba.

'Revolução é mudar tudo o que deve ser mudado' 

Esta é outra entre tantas frases emblemáticas de Fidel. Mas a Revolução Cubana de 1959 não se inicia com Fidel. Ela se inicia com Céspedes, no século XIX, que abre uma luta armada contra colonialismo espanhol. A geração de Céspedes gerou Martí, ideólogo da independência de Cuba e toda a América Latina.

Fidel foi prova de que os esforços de Céspedes e Martí não foram em vão. A Revolução Cubana, que inspirou gerações em todos os países latino-americano, foi gestada pelo seu próprio povo para derrubar o regime de Batista e criar uma nova Cuba. E esse seu caráter cubano, original, foi justamente que a deixou forte e viva por cinco décadas, sobrevivendo 11 presidentes americanos, ao fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, a implosão da União Soviética e as todas as transformações culturais e tecnológicas que o mundo a agora conhece. A morte de Fidel representa simboliza o fim do século XX.

“Quando os homens têm um mesmo ideal, ninguém pode isolá-los, nem as paredes de um cárcere nem a terra dos cemitérios. A mesma lembrança, a mesma alma, a mesma ideia, a mesma consciência e o mesmo sentimento de dignidade alentam a todos.”
FIDEL CASTRO
Fidel

Condenem-me, não me importa, a História me absolverá, disse Fidel em seu julgamento após a tentativa frustrada contra o quartel Moncada, em 53. A História já lhe absolveu, meu comandante. As mudanças que ocorreram em Cuba a partir de 59 redesenharam um país que tinha como destino se transformar num cassino caribenho do Império. Vieram a reforma agrária e os investimentos em saúde e educação.

Transformações como essa são tão necessárias para qualquer sociedade porque perduram por décadas e transformam seu povo. Apesar do embargo que aniquila a economia cubana, até hoje o país apresenta índices de educação e saúde pública superiores ou iguais a países desenvolvidos. Em 500 anos, o Brasil jamais colocou como prioridade saúde, educação e reforma agrária. Os que ousaram e tentaram refazer a trajetória nacional foram depostos. E continuamos governados por uma elite reacionária, racista, antinacional e entreguista.

Fidel e a revolução fizeram de Cuba o país menos injustos da América Latina, apesar de todos os pesares, como disse Eduardo Galeano. O que será de Cuba sem seu comandante? É uma pergunta difícil de responder. Fidel havia abondado o poder há dez anos. Raul tem firmeza e experiência para manter viva a revolução, como o faz desde 2006. Além disso, há uma nova geração de revolucionários que será capaz de assumir o comando do País.

Cuba terá enorme desafio pela frente. Continuará lutando pelo fim do embargo econômico e a devolução da base de Guantánamo. A revolução continua. Com foi com Céspede, com Martí e com Fidel. Eternos. 

Hasta la victoria, siempre


* Presidente da Associação Cultural José Martí Baixada Santista

 

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