No final dos anos 50, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos era apenas um estudante. Foi quando ele ouviu pela primeira vez o que era o movimento que culminaria  na Revolução Cubana e quem eram Fidel Castro e Che Guevara. Os últimos minutos das aulas de filosofia ministrada por um padre permitiam discussões políticas dentro do colégio. No entanto, revolução, esquerda e guerrilha eram temas problemáticos e perigosos demais para se discutir na capital de um país que lutava por sua independência.

Em 1959, Angola ainda era uma colônia africana e pertencia ao decadente império de Portugal, então controlado pelo ultraconservador Salazar. A partir dali as relações entre Cuba e Angola, países separados por um oceano e por 11 mil quilômetros, seriam cada vez mais próximas. E a partir daquele momento, mudaria também a vida desse jovem estudante. Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, lutou pela independência de seu país, ganhou um pseudônimo, Pepetela, e se transformou em um dos maiores escritores angolanos.

Ganhador do Prêmio Camões, é autor do aclamado Mayombe de outras duas dezenas de romances e peças de teatro. Aos 75 anos, Pepetela, à convite da José Martí,deu sua versão sobre a importância de Cuba no processo de independência de Angola. Com os olhos e as lembranças de quem viveu dois conflitos, o da Independência de Angola e Guerra Civil que tomou conta de seu país, Pepetela desconstruiu mitos sobre a participação de Cuba em Angola entre os anos 60 e 70. 

Pepetela durante palestra na José Martí Baixada Santista, em Santos / Foto: Ailton Martins

Pepetela durante palestra na José Martí Baixada Santista, em Santos / Foto: Ailton Martins

"O primeiro cubano que trabalhou para a independência da Angola foi um marinheiro que se chamava Hernandez. Regularmente ele ia a Angola e fazia a ligação Angola, Portugal e Brasil.  Ele levava documentação de Luanda a Lisboa, onde havia um núcleo de pessoas que lutavam pela independência da Angola", recorda Pepetela.  "Essa é a primeira relação que estabeleço entre Cuba e Angola. Hernandez ajudava no contato com grupos clandestinos que estavam em Portugal e muitos deles eram dirigentes do movimento de libertação." 

Houve três movimentos que lutaram pela Independência de Angola. O Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), que hoje está no poder, foi fundado em 1956. Surgiram também a Frente Nacional de Libertação da Angola (FNLA) e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA). Pepetela lutou pelo MPLA. Segundo ele, os três movimentos tinham razões e motivações distintas.  

MPLA nasce como movimento nacional

"O  MPLA tinha uma característica diferente dos outros por um motivo: o MPLA nasceu em Luanda. Como todas as capitais, Luanda tinha uma população um pouco de toda a Angola. O MPLA nasceu como um movimento nacional e recebeu um forte reforço das pessoas que estudavam em Portugal. Não havia universidade em Angola e era até proibido falar disso. Uma das revindicações que nós tínhamos nos anos 50 era da necessidade de ter uma Universidade em Angola." 

Com a passagem de Che Guevara pelo Congo em 1965, o MPLA pediu apoio a Cuba com a finalidade de treinar os guerrilheiros angolanos na luta pela independência. "Esse é um outro momento que houve essa colaboração de Cuba com Angola", diz o escritor. "Os cubanos, de fato, estavam em Angola. Mas como instrutores e não como militares. Isso era a desculpa que mundo ocidental dava por causa do apoio ao FNLA e a África do Sul para combater a 'influência comunista' em Angola."

A luta pela Independência em Angola durou mais de uma década, de 61 até 1975, em meio ao contexto da Guerra Fria e a disputa entre Estados Unidos e União Soviética pela hegemonia e influência mundial. Quando a Angola se tornou independente, entretanto, a Guerra Civil tomou conta do país, acabando com qualquer chance de um Governo provisório, como primeiramente estava previsto entre o Portugal e os três movimentos. A independência de Angola não trouxe paz.

"O MPLA estava sendo atacado pelo Norte e pelo Sul e foi nesse momento que pedimos apoio a Fidel Castro. Estava claro que haveria uma guerra e os cubanos nos ensinaram como era ter um exército regular. Sabíamos o que era uma guerrilha, mas não o que era ter um exército, os cubanos viraram instrutores. Não havia tropa cubana de combate em Angola" diz Pepetela.

O MPLA tinha o apoio de Cuba e não da União Soviética, como sugeriram várias versões sobre a Guerra Civil de Angola, afirma o escritor. "A União Soviética era contra a intervenção cubana em Angola. Não recebemos desde 1973 uma só bala da União Soviética, porque queriam nos obrigar a algumas condições, como fusão com a FNLA. Havia um pacto entre Estados Unidos e União Soviética sobre a África."  

A UNITA recebia apoio do apartheid da África do Sul e também dos Estados Unidos. A FNLA tinha respaldo da China, de mercenários ingleses e até portugueses.  Era a Guerra Fria agravando ainda mais a situação de um país arrasado. 

"Houve esforço enorme de Cuba e o exército cubano ficou em Angola até 1989. Mas não só o exército, mas sim milhares de professores, médicos, enfermeiros e técnicos de outras áreas, a troco de muito pouco. Se houve internacionalismo, foi de Cuba. Falo com emoção sempre porque vivi, não porque me contaram", diz Pepetela.

O acordo de paz e o Governo atual

Cartaz com a foto de Agostinho Neto, primeiro presidente eleito após a Independência

Cartaz com a foto de Agostinho Neto, primeiro presidente eleito após a Independência

Após 27 anos de Guerra Civil, o exército de Angola e a UNITA firmaram um acordo de paz em 2002. O conflito matou mais de 500 mil pessoas. Mais de 4 milhões de angolanos deixaram suas casas e mais de 600 mil angolanos se refugiaram no exterior. Os números são da ONU. Desde 1979, José Eduardo dos Santos é o presidente de Angola, e o MPLA governa o país desde a independência, em 1975.

 

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