Raquel Rolnik é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e urbanista especializada em política habitacional. Seu discurso sobre como o capital financeiro afeta o direito pela moradia é duro, crítico e realista. Os mais de 200 estudantes que foram à Universidade Santa Cecília observaram, atentos, a palestra que Raquel realizou por mais de uma hora numa noite de sexta-feira (28/10) em um evento organizado pela Unisanta, Unisantos e José Martí. O recado da urbanista que foi relatora da ONU de 2008 a 2014 foi claro: 

Raquel Rolnik, em palestra na Unisanta / Foto: Aílton Martins

Raquel Rolnik, em palestra na Unisanta / Foto: Aílton Martins

"Como uma cidade com o capital urbanístico de Santos continua tendo palafitas? É inadmissível com dinheiro, tecnologia e cultura que Santos tem. Se não é isso o que está sendo discutido nas escolas de arquitetura, eu não sei o que está sendo discutido."

É uma contradição, como reforçou Raquel, com o legado urbanístico de Santos, o desenho dos canais e o projeto de paisagismo na orla da praia, que remonta aos anos 30.  "Não me sinto totalmente confortável para falar sobre a Baixada Santista porque não acompanho o problema de perto, mas posso falar da paisagem que vi e quase morri de susto com aquelas torres de milhões de dólares. O que aconteceu com essa cidade?"

Essa fotografia cruel não é um retrato apenas da cidade de Santos. A falta de condições de moradia se perpetua como um dos maiores problemas de todo o mundo em pleno século XXI. De São Paulo, de Nova York, de Londres, do Cazaquistão, de Israel, da Espanha. A inabilidade de o Estado oferecer uma casa digna para a maioria de seus cidadãos é o tema central de Guerra dos Lugares - a colonização da terra e da moradia na era das finanças

Guerra dos Lugares, Editora Boitempo.

Guerra dos Lugares, Editora Boitempo.

O livro, publicado pela editoria Boitempo, é fruto do trabalho de Raquel com relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, cargo que ela ocupou de 2008 a 2014. Moradia, frisa Raquel, é um direito humano, e a arquitetura, segundo sua visão crítica, se transformou em um "bibelô" de projetos financeiros e do capital especulativo. Até mesmo ideias teoricamente ótimas, como a revitalização de um espaço público degradado, se curvam ao poder dos mega investidores. Um exemplo é o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. 

"Há um processo de neoliberalização do planeta, que é o desmonte de política de bem-estar social dos anos 30 ao 70, na Europa, nos Estados Unidos, em ex-países comunistas e socialistas, em maior ou menor grau. Havia uma política de bem-estar social, para saúde, educação e moradia. Tudo isso está sendo desmontado. É destruir o modelo anterior.".

Raquel citou o desmonte das políticas públicas de moradia nos Estados Unidos e na Inglaterra. Falou problemas graves de moradia na Espanha e das experiências desastrosas do Chile. Criticou a política dos megaeventos no Brasil e mostrou porque o projeto Minha Casa, Minha Vida funciona com a mesma lógica do capital financeiro, além de segregar o pobre para espaços afastados na cidade. São faces da bolha imobiliária global. O drama é que, como mostrou a urbanista, ao invés de combater, o Estado, em muitos casos, estimula esse ciclo perverso de desigualdade. 

A palestra foi gravada por Aílton Martins, do Frequência Caiçara:

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