Por Aílton Martins, do Frequência Caiçara (Texto e fotos)

No próximo dia 31 de outubro completam dois meses do afastamento de Dilma Rousseff (PT) da Presidência da República, condenada pelo Senado por ter cometido crimes de responsabilidade fiscal - as chamadas "peladas fiscais" no Plano Safra e os decretos sem autorização do Congresso Nacional. Como resultado desse afastamento, constitui-se de modo acelerado um cenário de desmontes de direitos sociais. Desde que assumiu a presidência,  Michel Temer colocou em curso um novo projeto de país que se apresenta como um contentor de gastos e de moralização dos recursos públicos. Mas na verdade, o que tem por trás disso, são cortes em setores essenciais como educação e saúde em favorecimento do capital privado.

A PEC 241, conhecida como a "PEC do fim do mundo ou da maldade", é a perfeita tradução do que é prioridade para este governo. Com isso são quase dois meses também que à esquerda brasileira tem tentado refletir ao mesmo tempo que agir diante de uma crise interna, externa e de correlação de forças. Logo após o afastamento de Rousseff as mobilizações em torno do "Fora Temer" levaram centenas de milhares de pessoas às ruas em protesto a um governo ilegitimo, os memes nas redes sociais viralizaram e, num curto espaço de tempo, houve a impressão de que algo pudesse acontecer, apesar dos conflitos entre determinados setores à esquerda onde uns preferiam a paz e outros estavam mais dispostos à guerra, além daqueles que estavam mais preocupados com as eleições. No entanto, entre discussões sobre Black Blocks, unidade de esquerda, pauta de orientação, crítica aos anarquistas e aos comícios partidários que estavam se transformando os atos e tudo mais, tudo desaguou no nada. Além da disputa e na ojeriza de mais uma eleição.

Foi uma eleição interessante, onde a maior parte da esquerda partidária resolveu lançar candidato indiscriminadamente, o que revelou certo sinal de desespero, mas como o momento tem sido muito mais capitaneado por sentimentos do que por racionalidade é compreensível, o fato é que a derrota nas urnas foi mais um medidor de forças em que à esquerda saiu perdendo, certamente que há de se considerar que o poder econômico é determinante. Mas nem tanto. Na verdade, também revelou uma esquerda desgastada - parte por tudo que tem ocorrido, outra devido sua própria inconsistência. Com isso não tem conseguido se ressignificar dentro de um diálogo com a população.

Mesmo para quem não acredita numa transformação por meio de vias partidárias e eleição não sendo medidor de força social à esquerda, as eleições revelam um pouco do estágio na correlação de forças. E foi uma catástrofe: a direita avança predominantemente, e isso, logicamente, influenciará em muitas questões que afetam o cotidiano de todas as pessoas, principalmente da população pobre. Gostemos ou não de eleição.

O governo do PT é (quase) indefensável em muitos aspectos, inclusive, é o maior contribuidor de sua própria derrocada. Entretanto, o que podemos aprender com isso? Será possível construir uma unidade de luta para realizar os devidos enfrentamentos necessários para barrar a PEC 241 e tudo que virá depois? Afinal, cada dia é uma nova surpresa, e olha que isso já vem ocorrendo há tempos. Enfim, resistir é preciso, mas sobram dúvidas se esse caminho migratório por diversas pautas possa surtir algum resultado concreto. O que quero dizer com isso? Justamente sobre essa falta de consistência da esquerda no exercício de um trabalho cotidiano, muito se fala nos fóruns e nas reuniões sobre retornar a base, mas no final a prioridade é sempre a próxima reunião e o próximo ato contra o próximo ataque, e logo após a reflexão pouca aprofundada de porque não se conseguiu agregar tantas pessoas. Seria somente uma crise de representatividade que estamos vivendo? Ou tem algo mais que passa à margem?

A conjuntura nacional

O momento atual é de crise, de ascensão e de repressão das lutas. Em algumas regiões na luta contra PEC 241, o Paraná, talvez, seja o maior exemplo de luta que emerge, quase mil escolas ocupadas por secundaristas. Já em São Paulo o movimento secundarista devido às perseguições e forte repressão da polícia tem chegado à beira de um esgotamento, mas resistem. Vale dizer que em São Paulo há um estado de exceção promovido contra os secundaristas, do mesmo modo ocorre no Rio de Janeiro. Portanto, é preciso olhar com atenção o momento atual em que muitos jovens estão sendo esmagados quase que silenciosamente.

Nesta última segunda-feira ocorreu um ato grande em São Paulo na Avenida Paulista contra a PEC 241, onde o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de SP) compareceu em peso, e apesar de algumas mídias terem noticiado que foi um ato espontâneo, não foi. Cerca de uma semana antes havia um evento no Facebook e vários coletivos de São Paulo estavam puxando essa discussão.

Outros atos estão sendo convocados em todo o País contra a Reforma da Previdência, do ensino, entrega do pré-sal, em geral contra os ataques do governo Temer. Mas ainda deste modo, o futuro (mesmo sem tempo para respirar) parece bastante perturbador, caso não for estabelecido em paralelo uma organização pontual que desenvolva a luta dia a dia.

A história é um ciclo que não acaba

Em 1994 um grupo formado em maior parte por indígenas ocupou a província mexicana de Chiapas desafiando o poder do Estado na região, desapropriou fazendeiros e chamou atenção das esquerdas do mundo inteiro com seu exército EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional). Muitos intelectuais chamaram esse levante de a primeira revolução do mundo pós-moderno. Enfim, vinte e dois anos após o levante, eles continuam firmes, mesmo com todas as características que os diferenciam, há muito para se aprender com os Zapatistas, principalmente no exercício da construção da autonomia e na luta cotidiana por meio de um projeto social que remonta um histórico de cerca de 40 anos, e também pela imensa capacidade que os Zapatistas têm de se ouvirem e de buscarem sempre as soluções para os problemas junto com os de baixo, e não por meio de uma vanguarda que pensa e decide por todos. Em seus territórios conquistados há placas com a seguinte frase: “Esta usted en territorio zapatista em rebeldia, aqui manda el pueblo y el governo obedece.”

Nestes territórios, os Zapatistas construíram suas escolas, postos de saúde, judiciário e decidiram não mais disputar o poder, mas construí-lo. É uma realidade particular que não dá para pegar como fórmula pronta e sairmos aplicando, todavia, também não é possível ignorar uma das maiores experiências contemporânea construída pelo povo indígena de Chiapas.

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