Por Ailton Martins, do Frequência Caiçara

Na última sexta-feira (29/7), a José Martí Baixada Santista encerrou o Ciclo de Debates: O que fazer?, cujo objetivo foi discutir a atual conjuntura política do País juntamente com movimentos sociais, organizações estudantis e partidos políticos. As discussões partiam do pressuposto: Que fazer?* E a partir disso, indicavam caminhos práticos que podem ser construídos para enfrentar este momento de avanço do conservadorismo em detrimento de direitos da classe trabalhadora. 

Neste último ciclo debate a composição da mesa contou com a presença dos secundaristas da Baixada Santista que ocuparam no final do ano passado três escolas da Baixada: duas em Santos e uma no Guarujá. As ocupações tinham por objetivo evitar o projeto de reorganização escolar do Governo Estadual de São Paulo que pretendia fechar em torno de 1.500 escolas -  inicialmente foram divulgadas 94 escolas

Na Baixada Santista seriam fechadas uma escola em São Vicente, o E.E Maria Tereza, duas em Santos, o E.E Cleóbulo Amazonas e o E.E Bráz Cubas, e três no Guarujá, o René Rodrigues, o Lamia Del Cistia e o Jardim Primavera II. Além do fechamentos de ciclos de ensino médio em outras escolas, em São Vicente, o Maria Dulce, em Santos, o Azevedo Junior e o Suetônio Bittencourt, além de escolas em Praia Grande e Guarujá que não saíram na lista, mas entraram no rol de encerramentos por ciclo. 

Ocupação no colégio Cleóbulo Duarte, em Santos (Ailton Martins - 12/15)

Ocupação no colégio Cleóbulo Duarte, em Santos (Ailton Martins - 12/15)

O tema colocado no debate para os secundaristas foi o desmonte da educação pública e, a partir da experiência de ocupação, de que modo os secundaristas entendem a luta pela educação?

"A gente tem que se unir para conseguir evitar esse caos que está acontecendo com a educação pública [...] é absurdo pensar a situação que chegou, a gente tem que continuar lutando, diante de tudo que está acontecendo por debaixo dos panos [...] e permanecer unido que ainda tem muita coisa pela frente".  
Ingrid Ramos, secundarista de Santos
"É muito triste saber de tudo isso, a gente não pode parar, a luta continua pra além das ocupações, a gente acredita nisso, sabemos que a educação é precária pra caramba [...] é inaceitável, revoltante [...] e a gente tem o discernimento, a ocupação foi muito importante, eu aprendi a ter autonomia, essa questão de ter voz [...] aprendi entender as coisas de outra forma [...] fico pensando em casa [...] que a gente é muito invisível, que as pessoas não sabem o que está acontecendo [...] e na ocupação nos aprendemos juntos, e hoje, temos uma forma de pensamento que a luta não pode parar, a gente sabe que é muito precária a nossa educação, e não podemos aceitar isso, temos que continuar juntos, na luta mesmo"
Matheus Oliveira, secundarista de Guarujá
"Na real, a gente aprendeu a pensar, a gente aprendeu que temos direitos sim [...] e temos que lutar para conquistá-los. Outra coisa, várias questões vieram junto, muitas mesmo, por exemplo, sempre, tá estampado na nossa cara, que mulher é sexo frágil, que não serve pra porra nenhuma, só pra cuidar de casa e sustentar os marmajão né? Além de levar nove meses na barriga ainda tem que botar o vagabundo no mundo e sustentar o marmajão? [...] Não. Na ocupação a gente fez várias debates lá sobre feminismo e colocamos que mulher consegue fazer o que homem faz, tá ligado? Em muito momentos a luta foi decidida por mulheres sim, não porque queríamos ser melhor, mas porque era preciso e os marmanjo tinham que se ligar nisso, certo? E respeita as minas!"
Patrýcia Menezes, secundarista de Santos

Modelo de ensino que aliena e domestica

De acordo com os secundaristas, contrariando tal proposta de 'reorganização escolar', durante a ocupação eles entenderam que era preciso enfrentar este desmonte da escola pública, que a princípio para eles era apenas a luta para que a escola não fechasse. No entanto, durante o processo de ocupação vários questionamentos foram surgindo, dentre eles, questões de direito à educação, de direito a ter voz na escola e participar dos processos decisórios, porque em nenhum momento eles foram consultados sobre tais medidas. 

Na verdade, ninguém, nem a direção, nem os professores, nem as mães e os pais e muito menos alunos foram ouvidos. Portanto, a partir dessas reflexões que surgiram, compreenderam a urgência de lutar pela educação, e que essa luta perpassa manter a escola funcionando. Ela diz respeito a todo um modelo de ensino que não é capaz de agregar o estudante na escola, na verdade, ele exclui, domestica e aliena. Ou seja, é um modelo fabril, um modelo próprio do sistema capitalista que lida com números e constrói corpos dóceis.

Durante o debate muitos questionamentos em relação a posição política e partidária foram colocados pelas pessoas que acompanharam as falas dos secundaristas. Segundo os secundaristas, o principal é prezar pela autonomia do movimento, durante a ocupação eles não precisaram de partidos para agirem, e mesmo não tendo uma compreensão mais abrangente sobre a política, ou sobre movimentos sociais e partidos, eles agiram, não que eles sejam contra, mas se colocam de forma apartidária, e neste momento pós-ocupação estão construindo os grêmios, realizando reuniões nas escolas e entre as escolas para discutir questões especificas, tanto para discutirem os rumos do movimento secundarista quanto para pensarem questões práticas de cada escola, neste processo também têm se aproximado de organizações políticas procurando aprender mais sobre a luta, mas sem perder a autonomia.

*'Que Fazer' é o nome de um livro de Vladimir Lenin, onde o revolucionário russo procura apontar questões práticas para aplicar ao movimento revolucionário Russo.

 

 

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