O feminismo é parte intrínseca do movimento comunista. Ele condiciona o devir revolucionário da revolução que, sem ele, se transforma em contra-revolução
— Nicole-Édith Thevenin

Por Helena Pontes

Ainda temos, nos dias de hoje, debates quanto a ascensão de mulheres socialmente através de casamentos. Temos a culpabilização de mulheres que acham que o mais importante é sua beleza física e que, em tese, investem nesse aspecto a fim de conseguir ter “uma vida melhor” financeiramente. Temos quem solte frases como “ela fez um filho com”, como se coubesse só a mulher a prevenção de uma gestação indesejada e a gravidez fosse uma “arma” da mulher pela qual essa, ao invés de atrair para si um ônus para o resto da vida (ônus para muito além do financeiro, há que se registrar já que parece que para muitos isso ainda não ficou óbvio), arrancasse de outrem 30% de seus ganhos mensais e mais alguns benefícios (ainda que na realidade isso não ocorra na maioria do que observamos diariamente e as mulheres criem seus filhos sem que os pais assumam suas responsabilidades meio a meio como seria o lógico).

Comecemos pela culpabilização da mulher por achar que sua beleza física é o que essa tem de mais importante, seu único e maior bem. Quem prega esses valores? Quem os incute nas cabeças de meninas e jovens? Quem é que coloca tudo o que essas fazem como inferior através da disseminação de “inocentes” piadas, ditos e expressões - como “coisa de menina”, “parece uma menininha” etc -, que se repete de modo irrefletido?

Quem não é capaz de tecer elogios a uma menina que não seja relacionado a sua aparência física? Quem cria e lhes municia desde a primeira idade com “brinquedos” educativos de seu papel de inferior e submissa, de ser humano de segunda classe, que se não for atraente sexualmente (você deve afinal ser sempre linda como uma Barbie), útil à exploração masculina (sabendo brincar de casinha – cozinhar, lavar, passar, cuidar dos filhos, limpar) e do sistema capitalista (estão as novas Barbies “você pode ser o que quiser” se colocando a disposição da produção de mais valia) não tem valor, não é digna de respeito e serventia? Quem silencia meninas e as proíbem de práticas que lhes auxiliariam no desenvolvimento pleno de suas  forças físicas, a fim de facilitar o controle, com o ideal de “isso não é/é coisa de uma mocinha”?

Engels e a definição de casamento 

Famílias, patriarcais como são, continuam criando filhas como quem cria gado. Pais continuam vendo na filha adolescente bonita uma coisa com a qual podem auferir algum ganho ou, se derem “azar”, ter grande prejuízo: é importante conseguir passar “para frente” o objeto antes que esse, pela ação do tempo, se torne menos interessante e pouco aproveitável; é importante garantir que o produto não esteja danificado; é importante garantir que o produto nunca foi utilizado ou foi pouco, ao menos. A colocação de Engels de que o casamento é irmão gêmeo da prostituição continua atual pois não superamos esse modelo de família. Isso é horrendo e por mais surreal que pareça a algumas e alguns de nós, ainda acontece, de modo descarado - como em casamentos de homens muito mais velhos com jovens adultas ou de meninas incentivadas pela sociedade a “garantirem seu futuro” se jogando para cima de homens escrotos, que as vão tratar mal por as verem como coisa, mas que têm dinheiro – ou velada – como atividades voltadas a jovens que lhes ensine a arrumar um “príncipe” (Culto das Princesas, Escola de Princesas etc), por exemplo.

O casamento apesar de não ser assim na realidade para a maior parte das pessoas, é tido como o ideal desse modo ainda: macho compra fêmea para lhe satisfazer; para dar um ar de “moderno” (o que é extremamente incentivado pelo capitalismo, que lucra mais com a exploração de nossa mão de obra que com a do homem) é permitido que ela trabalhe para comprar suas “coisas de mulher” mas nunca a ganhar mais que ele e, se ganhar, nunca pensar que pode ter voz igual a ele pois “é ATRÁS de um grande homem que há uma grande mulher” e não AO LADO dividindo o protagonismo que é só do macho e, muito menos, falando, expondo opiniões, contestando afinal “assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos” não devendo, pois, erguer-se contrariamente.

Culpamos a quem por isso? Culpamos ao pai, detentor do poder de decisão na família patriarcal, que cria filhos como seres humanos e filhas como investimentos sem refletir sobre o significado de tal prática? Culpamos o sistema que faz com que famílias inteiras dependam da “venda” de um membro para ascender? Não. Optamos por uma análise rasa e que permita rapidamente achar um culpado. Culpamos a vítima transformando-a em seu próprio algoz, em responsável, única e exclusiva, pela sua sorte. Ela é quem busca e se coloca nessa situação. Mais uma vez dirigimos a vítima o “se comportando assim, ela queria o quê?!?!” como se fosse tarefa simples romper com a opressão como ela soubesse que há outra forma de agir, como se romper com o “sempre foi assim e assim será” fosse algo fácil. Alguém se imagina dirigir esse tipo de comentário a um trabalhador que reproduz o discurso e o comportamento que lhe é esperado e ensinado a ter pelas classes dominantes?'

A mão de obra dócil

Quem cria, ou melhor, destrói a mulher para que se torne “mão de obra dócil” e como o faz é o que deveríamos estar observando mas não o fazemos. Por que a classe trabalhadora, ou pelo menos metade dela, vê seus iguais sendo desumanamente tratados e não lhes tem empatia? Por que não contestamos a educação no que diz respeito aos papéis de gênero e que serve a divisão da classe? Por que não debatemos o quão péssimo é para todos, homens e mulheres, a figura do macho? Por que não paramos para verificar e debater o fato de que o problema não está na mulher levantar a voz quanto a exploração sofrida e que não é isso que fragmenta a luta mas sim o fato de haver quem se preste ao papel de, sem a menor reflexão alijar seus semelhantes e iguais de classe, reprodutor de discurso liberal-burguês? Até quando em nossa prática aceitaremos a validação da ideia de que o sonho de todo oprimido é ser opressor?

Optamos por culpar a mulher usando de exceções como exemplo. Exceções essas, aliás, que servem para validar a opressão, iludir meninas e adolescentes, seres humanos em construção, com visão de que se aceitarem ser objetificadas - aceitar passiva, com um belo sorriso no rosto e sem contestar nunca sua exploração, permitindo-se serem usadas como meros buracos em que o macho se sacie (e a indústria pornográfica é perita em encontrar novos métodos para ensinar macho a torturar mulheres, lhes impondo práticas cada vez mais degradantes e dolorosas; eficazes ferramentas para as colocar em seus lugares de res sexual e, ao mesmo tempo, inadequadas para seu prazer e para o prazer de seus parceiros tal qual existem, infelizes e eternas consumidoras de produtos que lhes corrijam essa imperfeição natural) -, serão beneficiadas com uma tranquila vida material proporcionada por ele (como se isso bastasse para qualquer um, como se o quantum “ganho” afastasse a pessoa de seu lugar de oprimido).

Especificamente no que se refere a silenciamento e lugar de fala há que se esclarecer alguns pontos:

  1. a mulher ao denunciar a opressão que sofre pode e deve fazer como bem o entender, não sendo razoável que lhe venham cobrar modos recatados para tanto, como não se cobra isso de homens;
  2. a vivência de uma mulher de opressão de gênero a faz mais qualificada para falar sobre ela mas isso não significa que homens não devam participar desse debate e refletirem sobre o que fazem e o que sofrem por conta do machismo;
  3.  a participação e fala da mulher deve, dentro de espaços de organização da classe trabalhadora, ser incentivada mas o que a prática acabamos por ver é esta sendo criticada, mitigada, cerceada com reprodução de discurso burguês que coloca a mulher que se expressa publicamente como louca, nervosa, brava, descontrolada ou bruxa simplesmente, lhe cobrando passividade e comportamento submisso à voz masculina aplicando mecanismos de silenciamento como a ridicularização, isolamento, difamação e injúria para tanto; registre-se que o problema não está na crítica ao dito mas sim no implemento de tais mecanismos. Assim como é necessário que o feminismo avance no sentido de compreender que o inimigo não é e nunca foi o homem mas sim o homem burguês, é necessário também que o proletário incorpore em sua luta a pela emancipação de sua companheira ou não vai conseguir avançar. É preciso que se faça o esforço de conter o opressor que há em si, de acorrentar o burguês que há dentro de cada homem matando o ideal de macheza.

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