Por Aílton Martins, do Frequência Caiçara

Uma das nove cidades que compõem a região metropolitana da Baixada Santista, a cidade de São Vicente, talvez, seja aquela que vive a mais profunda crise econômica dos últimos anos. Uma crise que não iniciou no atual governo, mas que explodiu nos últimos quatro anos por diversas questões, desde incompetência administrativa, divida pública exorbitante, gastos maiores que a arrecadação, até a guerra política entre grupos oligárquicos que historicamente sempre comandaram o município, e após sofrerem uma "derrota" na urnas em 2012, iniciaram um tipo de oposição que pouco realizou, além de somente contribuir com o atraso da cidade, para deste modo atrofiar o governo do prefeito Luiz Cláudio Billi, que diga-se de passagem, antes de se tornar prefeito fez parte do mesmo grupo de oposição, ou seja, de uma forma ou de outra, são todos "farinha do mesmo saco", e o resultado é uma cidade em colapso econômico, mas também político. 

Outro ponto importante para ressaltar é que a cidade há tempos é governada por um sistema político corrupto, funcionando num modus operandi do "toma lá da cá"; um apoio aqui, uma creche ali e um gabinete acolá. Ou seja, um sistema onde os direitos da população são moedas de barganha política, tratados descaradamente como mercadoria, além de ficarem nas mãos de pessoas que controlam equipamentos públicos como se fossem patrimônios particulares. Absurdo? Sim, mas é real. Os vereadores da cidade, por exemplo. A maior parte entende que fazer política é financiar grupos culturais: quadrilhas, escolas de samba, times de várzea... Entretanto, não sejamos ingênuos, essa postura deles, é política, uma postura de gestão de currais políticos para se perpetuarem no poder. Tente acompanhar uma sessão plenária na Câmara Legislativa: é desgastante do ponto de vista das necessidades, as proposituras são risórias, para não dizer revoltante. Não irei citar nenhuma aqui, faço questão que pesquisem no site da Câmara. 

Coronel do bairro

E vale dizer também que esse sistema político "corrupto" expande seus tentáculos por meio de "apadrinhamento". O que seria isso? Seria o sistema em que políticos eleitos da região fatiam a cidade e controlam determinados equipamentos públicos: escolas, creches, cecofis... Além do espaço territorial, explico: esse parlamentar se torna um espécie de "coronel" que numa determinada região (bairro) tira proveito desses equipamentos, além de construir sua força política de manutenção do voto.

A consequência disso é uma Câmara Legislativa esvaziada de debates políticos com profundidade. Outro dia mesmo um vereador chegou a postar uma frase em seu perfil no facebook dizendo que, "política não se faz com blábláblá, mas sim com voto". E de fato, a política vicentina resume-se numa disputa de poder (escrota) entre coronéis, de políticos profissionais que estão preocupados em se manter no poder e não em trabalhar para o bem comum. Basta avaliarmos, por exemplo, o curriculum de cada vereador eleito na atualidade, ou estão no segundo, terceiro ou quarto mandato, ou estão no primeiro e são filhos ou parentes de outras velhas figuras conhecidas na política vicentina, pior, a maior parte, está ligada diretamente com grupos políticos que governam São Vicente durante décadas.

E mais, essa mesma maioria direta ou indiretamente possui contratos de empresas que prestam algum tipo de serviço para a prefeitura na área da educação, cultura, esportes, com máquinas de dragagem... Inclusive, alguns estão sobre investigação do Tribunal de Contas, por falta de prestação de contas de convênios e outros têm familiares respondendo na justiça por algum esquema de corrupção. Portanto, a cidade estar entregue ao abandono é por motivos que vão além da péssima administração da máquina pública, mas devido todo um sistema corrupto que precisa ser eliminado.

Nove condidatos concorrem à Prefeitura

Estamos em tempos de eleição. Na cidade existem nove candidatos concorrendo o cargo de prefeito, destes nove, um candidato (da Rede, apoiado pelo Psol) apenas não está envolvido em alguma relação com esses grupos oligárquicos. O restante dos prefeituráveis, inclusive, à esquerda institucional, sempre construiu alianças e conchavos em troca de apoios e conquistas de cadeiras. Portanto, ninguém dentre esses oito candidatos irá realizar algum tipo de enfrentamento radical, infelizmente, nem à esquerda institucional, que hoje na cidade de São Vicente não pauta debate nenhum, afinal, ela não tem sequer força política de provocar algum tipo barulho nesse sistema, obviamente que é compreensível do ponto de vista que ela também está de algum modo envolvida neste jogo.

Desgraçadamente foi uma escolha, mas o que sobrou para a população? Transporte público caro, controlado por um conglomerado que está respondendo na Justiça por lavagem de dinheiro, saúde sucateada, (a cidade não possui hospital, privatizaram o que existia), um problema enorme no setor habitacional, escolas sucateadas, falta de emprego na cidade, o próprio comércio resiste as duras penas... E no momento a crise do lixo e das creches. 

No que concerne a questão das creches era possível escrever textos e textos, aliás de todos os outros serviços públicos, mas esta, talvez, seja a mais gritante nesses últimos anos, e que revela a imobilidade e a omissão do Poder Legislativo que numa quebra de braços com o Poder Executivo tem ignorado a questão e atirado as pessoas no caos.

De modo bem resumido, o sistema de gestão de creches funciona por meio de um convênio em que a prefeitura repassa o recurso de fundo municipal para uma entidade sem "fins lucrativos", ocorre que essas entidades não têm cumprido com seu papel de prestação de contas, logo, os repasses são bloqueados pela prefeitura, na sequência, as associações não pagam as funcionárias e o equipamento entra em colapso, entretanto, essas associações possuem "padrinhos".

Candidatos a prefeito de São Vicente

Candidatos a prefeito de São Vicente

E quem são? Vereadores que "administram" indiretamente as creches, e no caso somente comunicam os pais e mães, isso quando avisam, que as funcionárias estão sem receber dois, três e até oito meses depois, ou seja, deixam a bolha crescer e explodir. E aí começa a briga de buscar responsáveis numa peregrinação sem fim, porque nestes momentos os padrinhos evaporam, e muitas creches acabam fechando, funcionárias terceirizadas terminam com seus direitos perdidos e os pais e as mães têm que se virar para conseguir uma nova creche, acrescento que, não são casos isolados, quem tem filho em creche pública em São Vicente com certeza em algum momento vivenciou tal situação. 

Enfim, é perturbador pensar o futuro da cidade diante de todas essas questões: crise econômica, politica e de representatividade, até porque como citei acima, o único candidato que não está envolvido com todos esses esquemas espúrios, é o Kayo Amado (Rede). Mas, em minha opinião, caso ele vença as eleições, considero pouco provável uma possível radicalização, botar barulho na cidade de fato e enfrentar essas oligarquias. Apesar de possuir um discurso interessante, colocando que o problema está na administração da máquina pública, com isso é preciso enxugar gastos e sermos mais técnicos no exercício da administração, e isso é uma verdade, todavia sabemos que o buraco é muito mais embaixo, inclusive que, precisamos estar organizados pela base, precisamos da população conosco.

Futuro sombrio

Estamos nesse nível de organização? Não. E o que estamos fazendo para mudar isso? Parece que nada, além de adotar os jargões dos movimentos sociais que acabam se tornando moda na boca da esquerda que disputa eleição, e isso com certeza não vai surtir efeito algum na força política que esses coronéis possuem. É preciso desmascará-los, qual o problema em falar que esse sistema todo não funciona? Que ele está favorecendo uma minoria que está controlando tudo e se dizendo representantes da população?  

Penso que esse é um dos problemas da esquerda que disputa eleição na cidade de São Vicente. Não tem sido capaz de pautar um debate político aprofundado, radicalizar e conseguir trazer a população para luta por meio de questões concretas que atingem a vida das pessoas. Perdem tempo com sorrisos e falas publicitárias que não servem para nada. E se todo essa energia e recurso de campanhas fossem investidos no caminho contrário? No caminho da autonomia e do empoderamento popular?

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