A dura realidade de quatro comunidades carentes de Santos é o tema central do premiado documentário Por Trás do Cartão Postal, do jornalista Junior Castro e do produtor audiovisual Gabriel Gomes. A produção independente venceu três categorias (Melhor Documentário, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro) na Mostra Olhar Caiçara do Festival de Cinema Curta Santos.  "Quando enviamos o filme ao festival não esperávamos nem ser selecionados. Por isso, foi mais importante, para nós, estar presente em um Festival tão importante para o cenário audiovisual da região e do país, do que o prêmio recebido. O que mais nos deixou feliz foi poder levar o grito das quebradas ao Festival", escreveu Castro em seu perfil no Facebook.

Na semana que antecedeu a premiação (1°/10), o jornalista conversou com o BLOCO e explicou os motivos que levaram ele e Gabriel Gomes a produzir um documentário com um olhar humano e que retrata uma Santos ignorada não só pelo poder público, mas também por uma parcela significativa da sociedade. "Existe um apartheid social em Santos que a mídia hegenômica não veicula", afirmou Castro. Por Trás do Cartão Postal traz a história de moradores da Alemoa, da Vila Gilda, da Vila Sapo e da Vila Progresso. Espelho de um Brasil desigual, excludente e cada vez mais conservador, Santos tem ao mesmo tempo o 6º IDH do Brasil e a maior favela de palafitas do País. Nesta sexta-feira (7/10), a JOSÉ MARTÍ exibirá o documentário (informações aqui) e fará um debate com os diretores. A seguir, os principais trechos da entrevista.

BLOCO: Por Trás do Cartão Postal é o segundo documentário produzido por você. O primeiro, Mudar sem se Mudar, também trata da questão do urbanismo e da falta de moradia. Por que você escolheu esse tema?

JUNIOR CASTRO: Santos é uma cidade onde o contraste social é evidente. Só não vê quem não quer enxergar. Poderia ter usado a fotografia ou, se eu tivesse talento, usaria a música como ferramenta para expressão minha indignação social. A ferramenta que eu tenho é o vídeo. Existe um apartheid social em Santos que a mídia hegenômica não veicula e que o poder público e as campanhas eleitorais não falam. Os próprios moradores das áreas nobres negam que exista.

BLOCO: Por trás do Cartão Postal traz uma reflexão mais que necessária e explora os contrastes sociais de Santos. Como uma cidade que tem o 6º IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País perpetua condições de moradias tão precárias?

Isso acontece porque o poder público está nas mãos de uma minoria que é absoluta na política da cidade. Tem o empresariado, tem aqueles que controlam o porto, tem o Grupo Mendes. Todos eles se perpetuam no poder. Além disso, Santos é uma cidade em que as pessoas têm uma mentalidade bem conservadora, muita gente nem conhece a realidade da cidade e não sabe que aqui existe a maior favela de palafita da América Latina. E a classe média perpetua o status quo que está aí.

BLOCO: Santos completará 24 anos de governos de direita ou centro-direita. Essa sucessão na administração na prefeitura dificultou o investimento em políticas públicas voltadas aos problemas de moradia? Há uma relação direta?

Acho que existe, sim, existe uma relação direta, mas se fosse um governo do PT, como a gente viu no Governo Federal, acho que não teria tanta alteração porque a máquina estatal é usada para financiar quem já está no poder. Eles querem perpetuar a elite financeira que há na cidade. Não sei se houvesse governo um pouco mais à esquerda se a mudança seria tão grande.

BLOCO: A discussão sobre moradia foi pouco debatida pelos candidatos à prefeito nessa eleição. Muitos vendiam uma imagem de uma Santos que não existe. Por que?

Curiosamente, depois que saiu uma matéria no Diário do Litoral sobre o documentário, passaram a falar sobre o contraste social. Acho que na verdade esses temas não entram em pauta em uma cidade conversadora. Quem mora na região da praia ou até um pouco mais para dentro não conhece a realidade do povo que mora na Zona Noroeste, no Morro ou nos cortiços. É como se houvesse um tapume imaginário. Eles tentam tornar invisível o lado periférico da cidade, não só para a população como para os turistas. 

BLOCO: Houve especulação imobiliária em todas as grandes cidades do País. Não foi diferente em Santos: de um lado da cidade apartamentos de R$ 1 milhão, R$ 2 milhões e do outro uma cidade abandonada pelo Estado. O capital, sem controle, provoca desigualdade. 

Santos vai do céu ao inferno. De apartamentos no Gonzaga que têm duas piscinas às palafitas. E essa especulação imobiliária se intensifica cada vez mais. Cada vez mais se constrói prédios mais altos, mudou-se até o plano diretor da cidade. A Vila Sapo sofre com o problema da especulação porque fica numa região cara, na Ponta da Praia, e é próxima ao porto. Muitas empresas querem tomar o terreno deles. Querem tirar as pessoas que moram lá e até as que moram nos cortiços do centro e empurrá-las ainda mais para a periferia. Santos se tornou uma cidade cara para morar. Esse foi um tema recorrente nas entrevistas. Tudo é muito caro.

BLOCO: Quais são outras reclamações entre os entrevistados do documentário?

Além da falta de saneamento básico, saúde e da carência de transporte público, existe uma reclamação comum: a falta de cultura, de entretenimento e lazer. Outra é a opressão policial. No centro, por exemplo, mataram três pessoas no dia do ano novo. As chacinas são recorrentes na periferia do Brasil.

Comment